Na segunda metade do século XIX, quase meio milhão de pessoas provenientes do Nordeste brasileiro migraram para a floresta. Esta enorme corrente humana, perseguida pela pobreza e pelas secas endêmicas que já assolavam o agreste e o sertão, queria fazer a tão promissora Amazônia. Mais tarde com a descoberta da borracha vieram os ingleses, que trouxeram para Belém e Manaus a energia elétrica, água canalizada, esgoto, telégrafo, telefone, iluminação pública, bondes e todo tipo de infraestrutura avançada, que até então os grandes centros brasileiros não conheciam.
Para melhorar o colorido, um pouco antes, por volta de 1815, logo depois de Napoleão, começaram a chegar os judeus, principalmente de Marrocos, e os sírio-libaneses do norte da África, trazendo com eles sua cultura e estrutura familiar únicas e a grande capacidade de trabalho. Em geral primeiro vinham os homens ainda solteiros. Portugueses, espanhóis, italianos, nordestinos, árabes e judeus. Sem perder tempo, eles se espalhavam pelo imenso território e tratavam de ganhar um pouco de dinheiro. Muitos se amancebavam com indígenas e caboclas, faziam muitos filhos e só mais tarde mandavam buscar, em seus respectivos países a mulher com quem se casariam. Estava em pleno funcionamento, adaptada à realidade amazônica, a velha e preconceituosa máxima portuguesa de colonização: branca para casar, mulata ou cabocla para se deitar e negra ou indígena para trabalhar.
No início dos tempos da borracha, grande parte das empresas, conhecidas como casas aviadoras de Belém e Manaus, que comercializavam o produto, pertencia a imigrantes lusos, que se tornaram grandes líderes empresariais e políticos. Por outro lado, os nordestinos, que vieram fazer a Amazônia empurrados pela seca, marcharam para o interior e aí se estabeleceram. Percorreram um longo caminho de sofrimento para, em alguns poucos casos, chegarem à ascensão econômica, social e política. Os mais prósperos se transformaram em coronéis de barranco, regatões e seringalistas. Tanto eles, quanto os aviadores portugueses ganhavam rios de dinheiro com a produção e a comercialização da borracha, mas tinham ainda outra fonte de renda: a venda de produtos e serviços, a preços exorbitantes, para consumo dos próprios seringueiros, que com o tempo se endividavam de tal maneira a ponto de se tornarem verdadeiros escravos brancos.
Em busca de espaço na cadeia produtiva e comercial da borracha os judeus e os sírio-libaneses desafiaram o poder econômico e enfrentaram com coragem o monopólio cruel dos aviadores associados aos coronéis de barranco. Vendendo mais barato e pagando melhores preços diretamente aos seringueiros, os regatões judeus e árabes foram decisivos no rompimento deste perverso cartel.
No início do século XX, vieram os japoneses, que não se envolveram com a borracha, ocupando-se apenas com agricultura.
Depois da borracha para os habitantes da Amazônia, os desafios econômicos se tornaram maiores ainda. Infelizmente o modelo econômico da Zona Franca de Manaus continua sendo a única alternativa de desenvolvimento e de integração da região com o restante do país. Agora, no século XXI chegou a hora de procurar outras oportunidades de exploração consciente e pragmática da fantástica biodiversidade das nossas florestas sem causar grandes prejuízos ao meio ambiente.
A Amazônia é este encontro exuberante entre uma natureza ímpar e a cultura de diversos povos.